divagações

A inocência dos dogmas

Quem acompanha o blog do Ludwig Krippahl sabe que a sua rubrica “Treta da semana” é sempre bastante crítica, mas também igualmente sóbria e justificada, concorde-se ou não com a opinião do autor. Esta é uma característica não muito comum nos blogs nacionais que acompanho, razão pela qual o blogQue Treta!” está nos meus preferidos a nível nacional, ao lado do Bitaites e de poucos mais.

Ao analisar a polémica sobre o filme “Innocence of Muslims“, o Ludwig oferece-nos um ponto de vista bastante interessante e que pouco tem sido falado: existir maior respeito pelos dogmas do que pelas pessoas. Como escreveu, e muito bem:

O respeito é a aversão a fazer mal ao outro. Portanto, não faz sentido respeitar crenças ou ideologias. Esse chavão comum, em qualquer discussão sobre crenças, de se dizer respeitador da opinião contrária é absurdo. Pode ser boa educação, como tirar o chapéu, mas não passa de um berloque retórico (7). E quando é levado a sério é uma chatice porque respeitar opiniões implica desrespeitar quem delas discorde. Eu não respeito o islamismo, nem o cristianismo nem o ateísmo, tal como não respeito a regra de três simples, nem a raiz quadrada de dois nem a Serra de Montejunto. Eu só respeito seres que sentem, como cães, golfinhos, macacos e humanos. Por isso não vou condenar ninguém por “insultar” o ateísmo, Darwin ou o Judo Clube de Odivelas e não vou “respeitar” crenças ou preconceitos em detrimento das pessoas.

Infelizmente, religiões e ideologias dessa índole têm de o fazer. Respeitar as pessoas implica, pelo menos, reconhecer-lhes liberdade de consciência e de expressão. Mas se uma religião não subjuga este respeito a um “respeito” ainda maior pelos dogmas que a identificam acaba por se desfazer ou por se transformar noutra que o faça. A violência à conta deste filme é apenas um de muitos exemplos do que acontece quando se respeita mais as ideologias do que as pessoas.

Embora o filme seja de facto provocador e de mau gosto – e, dizem, tenha sido alterado propositadamente para irritar o islamismo -, nada justifica a violência que tem ocorrido. Porque, tal como os muçulmanos querem que o seu profeta seja respeitado, também deve ser respeitada a crítica e a opinião dos outros. Como escreveu o Ludwig, deve respeitar-se as pessoas e não os dogmas ou ideologias.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *