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Combate à criminalidade não é contrário à privacidade

Miguel Mota, um nome que nunca vi referenciado até hoje, escreveu um artigo de opinião n’O Público onde pede aos leitores para ponderarem se não compensará a perda de privacidade em detrimento de um melhor combate ao crime. E, neste texto, Miguel Mota dá a entender que quem não deve não teme. Bem, tem razão, mas não é por isso que eu quero que andem a meter o bedelho naquilo que faço. Se a vida é minha, é só minha, não é de mais ninguém.

A diminuição – ou mesmo fim – da privacidade como meio efetivo de combate ao crime já se provou ineficaz. Inglaterra é um exemplo muito bom: a vigilância está literalmente ao virar de cada esquina e não foi por isso que se viram grandes efeitos no combate à criminalidade. O que ocorre muito por terras de sua majestade é sim a utilização destes sistemas para perseguições políticas disfarçadas de combate ao terrorismo. Relatos não faltam, basta quererem perder uns minutos a fazer algumas pesquisas. Até vos posso dizer que o boingboing.net tem uns quantos.

Já que Miguel Mota usa um exemplo exagerado e parte de um pressuposto errado, o de que só com a devassa da privacidade é que se combate efetivamente a criminalidade, eu também vou usar um exemplo deste género. Imaginem alguém que tem várias dívidas. A dada altura, a pessoa começa a ponderar o suicídio, porque depois de morto já não tem os cobradores à perna. Seria sensato a pessoa suicidar-se? A verdade é que deixaria de ter chatices por causa das dívidas, mas também não é a por termo à vida que se resolvem as coisas. Como dizia a minha avó, temos que arregaçar as mangas e agarrar o touro pelos cornos. Ou, neste caso, investigar a criminalidade, algo que é de salutar, sem nos tornarmos numa China ou num Irão.

Citando Camões, «mudam-se os tempos, mudam-se as vontades; muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança». Mas que terá mudado tanto para que agora digam que só com o fim da privacidade é que a criminalidade se combate? Digam-me porque raio o conseguiam fazer antes e agora não? Acham mesmo que é necessário ter um Grande Irmão a expiar o que cada um faz ou os motivos são outros?

2 thoughts on “Combate à criminalidade não é contrário à privacidade

  1. Bruno, o tipo de letra que tens aqui no blogue torna os textos quase impossíveis de ler. Experimentei no Chrome, Firefox, Safari e Opera e não existe qualquer diferença. No teu PC isso não sucede?

    • Bruno Miguel says:

      Por acaso, não. Comigo, a cantarell faz bem o render.

      Experimentaste com Windows ou outro sistema operativo?

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