divagações

Crenças e factos

2009-10-12-science-vs-religion
imagem retirada do webcomic Ape, not Monkey

Não sou dado a espiritualidades, religiosidades ou superstições; prefiro factos e dados empíricos a coisas como fé. Por vezes, isto causa-me alguns transtornos e mal entendidos porque, quer queiramos quer não, a tendência para crenças está entranhada na nossa carga genética. Ou, como costumo dizer, temos uma falha evolutiva.

Uma amiga minha é um pouco o oposto de mim. Embora não seja religiosa, acredita bastante no tarot e espíritos, alinhamento de astros e essas coisas. Ela diz inclusive que tem uma sensibilidade maior que lhe permite sentir o que os outros sentem. Como devem imaginar, entramos em conflito (pacífico) sempre que este tema vem à baila.

Quando falamos de espiritualidades, ela tenta sempre convencer-me de que a leitura de cartas não é treta, que existem espíritos e anjos, que há pessoas com maior sensibilidade e mais uma série de coisas que eu nem sei bem o que são ou como se chamam. Da minha parte, insisto sempre para que me apresente factos e explique porque motivo isso é assim e não de outra forma. A resposta que normalmente recebo é: “há coisas que não se explicam”.

Isto vem a propósito de mais um excelente artigo do Ludwig Krippahl sobre misticismos. No “Treta da semana: hepatoscopia“, ele aborda a prática de prever o futuro através do figado dos animais para fazer perceber que as coisas não são de uma determinada forma só porque sim, e que devemos procurar explicações e fundamentar o que dizemos.

Citando o autor:

É por isso que é tão importante perguntar como é que sabem o que dizem saber. Se perguntarem a um físico como sabe a idade das estrelas, ou a um bioquímico como sabe a estrutura do ADN, eles explicam com o detalhe que quiserem. Mais detalhe do que quiserem, provavelmente. O conhecimento é essa ligação entre as descrições e aquilo que estas descrevem, um encadeado de dados e inferências que se pode apreender e compreender. Sem mistérios insondáveis, sem saltos de fé, sem fontes autoritárias, poderes especiais ou revelações divinas.

Para conhecimento não basta apenas uma lista de alegações acerca da realidade. Para se saber é preciso também conseguir fundamentar essas alegações. Não pela fé mas, tal como a realidade, com algo que resista à dúvida. O resto é inventar deuses no fígado do carneiro.

Embora goste bastante dos nossos debates sobre religião, crenças, espiritualismos e misticismos, tenho pena que, até ao momento, ela ou qualquer outra pessoa não tenha conseguido apresentar dados concretos que mostrem que a leitura de cartas é exacta e credível, ou que de facto andam espíritos e anjos entre nós.

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