política

“Eh!, touro” – carta de Miguel Marques à deputada Margarida Netto

Subscrevo a 100% esta carta enviada por Miguel Marques à deputada do CDS/PP, após declarações da deputada em defesa deste espetáculo sanguinário que é a tauromaquia.

«Exma. Sra. Deputada,

Tive a oportunidade de assistir à sua intervenção no debate parlamentar da passada quarta-feira, sobre os projectos de lei apresentados pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Ecologista os Verdes, que pediam o fim do financiamento público às actividades tauromáquicas, o fim da transmissão destas actividades na televisão pública, e que estes fossem considerados espectáculos susceptíveis de influírem negativamente na formação da personalidade de crianças e adolescentes.

Não lhe escrevo para lhe explicar aquilo que considero ser óbvio quanto à tauromaquia em si, temo que se não compreende a razão pelo qual alguém se manifesta pelo respeito ético e pela valorização da vida de um animal, será certamente porque a sua ignorância sobre os animais não humanos não lhe permite atribuir tal valor e desenvolver tal concepção de ética, e não ambiciono transmitir-lhe tamanho conhecimento numa mensagem electrónica.

Escrevo-lhe para manifestar o maior repúdio por uma afirmação em particular que fez ao fim do segundo minuto da sua intervenção, e passo a citar:
“(…) considera que todos estes espectáculos e tradições ancestrais, dignos de reprovação, citando estudos que ninguém viu, ninguém comprovou, e em que poucos acreditam.”

Sinto-me extremamente embaraçado por lhe vir explicar algo que creio ser elementar, de me ver obrigado a explicar-lhe que, enquanto deputada, tem a obrigação por profissão de ser rigorosa nas discussões parlamentares em que se envolve, e jamais fazer afirmações baseadas no mais puro e ingénuo desconhecimento sobre a matéria comentada, acrescentando ainda que a arrogância com que declara a afirmação citada, revela que não teve sequer a menor preocupação em assegurar o rigor na sua intervenção, o que, na minha óptica, torna a situação ainda mais grave. É para mim, enquanto cidadão deste país, uma grande humilhação ser governado por pessoas tão medíocres como a sra. deputada revelou ser numa tão curta frase.

Estou a enviar-lhe por anexo alguns artigos de referência, de uma área de psicologia e psiquiatria que tem vindo a ser bastante explorada no meio académico pelo menos desde os anos ’70. Espero que a sra. deputada tenha a ocasião de ler estes artigos, e as referências que dentro deles encontrará, e estarei disponível para lhe enviar, dentro das limitações da minha instituição, quaisquer outros artigos que pretenda ler e contudo não tenha acesso aos respectivos jornais. Recomendo-lhe ainda dois livros de referencia:

“Child Abuse, Domestic Violence and Animal Abuse: Linking the circles of compassion for prevention and intervention”, editado por Franck R. Ascione e Phil Arkow, publicado pela Purdue University Press
“Animal Cruelty: Pathway to Violence Against People”, de Linda Merz-Perez e Kathleen M. Heide, publicado pela Altamira Press.

Ainda sobre o seu comentário, afirmou mais tarde que é falso que as touradas influenciam negativamente as crianças e adolescentes (creio que os artigos que lhe estou a enviar em anexo, um dos quais especificamente sobre tauromaquia e publicado numa revista de revisão científica, a vão esclarecer por completo quanto a este ponto), e que o mesmo não se pode dizer sobre certos filmes e séries (incluindo, na sua opinião, alguns desenhos animados) que passam na televisão; não me apercebi recentemente de nenhuma série ou filme que sendo susceptível de influenciar negativamente crianças, não estivesse classificada como tal, mas se a sra. deputada identificou algum ou alguns casos, creio que deverá ser a sra. deputada a denunciar essas situações e não esperar que alguém do BE ou do PEV se aperceba da situação e se chegue à frente para realizar a devida denuncia. Em todo o caso, estranho que não consiga distinguir a diferença entre violência ficcionada, e violência gratuita apresentada num formato de espectáculo ou festa. Espero que a bibliografia que lhe recomendo a ajude a refinar a sua opinião. Aproveito ainda para lhe enviar também em anexo um artigo, publicado também numa revista de revisão científica, sobre a relação entre preocupação com direitos dos animais e preocupação com problemas sociais e humanos.

Afirmou ainda que a tauromaquia é um dos espectáculos mais participados em Portugal. Sinto-me outra vez na obrigação, embaraçosa, de fazer por si o trabalho de casa que a sra. deputada deveria ter feito antes de preparar sequer a sua intervenção, apresentando-lhe o relatório do INE referente a estatísticas da cultura em 2010:

http://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes&PUBLICACOESpub_boui=132415701&PUBLICACOESmodo=2

Deverá consultar a página 27 deste relatório.

Espero que este tenha sido apenas um episódio no qual deixou a sua paixão pela cultura tauromáquica superar a sua racionalidade e profissionalismo, e que de futuro os portugueses não voltem a assistir a este tipo de incompetência e descuido da sua parte, no exercício das suas funções politicas.

Com os melhores cumprimentos,

Miguel Marques

via Arco de Almedina

Nota: eu sou completamente contra as touradas. Não tentem convencer-me de que é um espetáculo sem nada de mal, que é tradição, etc, porque não vão conseguir.

2 thoughts on ““Eh!, touro” – carta de Miguel Marques à deputada Margarida Netto

  1. Rui says:

    Penso que por demasiadas vezes se chegou já à conclusão que somos, actualmente e desde à uns bons anos para cá (desde 1974?), governados por uns imbecis que, como pessoas, nunca passaram da mediocridade, e cujo garante de trabalho é terem o cartão do partido para mostrar.

  2. Vitor Marques says:

    Este post parece-me desnecessario, pois pretende desde o inicio proibir e convencer os que gostam de touradas quando a pessoa que quer convencer os demais é inflexivel e quer impor um dogma a todos os outros.

    É como um gajo que gosta de amarelo e outro de vermelho a discutirem qual a melhor.

    As touradas a mim não me fazem comichão, mas também não me animam, a importancia dada às touradas por parte negativa parece ter virado moda, da mesma forma que a betaria agora adora toradas.

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